domingo, 25 de março de 2012




Sexta fui ver a exposição da Tarsila no CCBB.
Tudo tão simples, poético...um percurso afetivo mesmo. Quase se podia sentir o cheiro da época.
Acho que fiquei com essa impressão pelas cartas escritas à mão, com caneta tinteiro.
Surpresa boa na verdade  não foi  ver o Aboporu por lá, já sabia que ele  não ia mesmo. Tinha lido no jornal.
Surpresa foi ver que o Urutu era roxo. De um roxo lindo. Cor de  doce de  batata doce. e brilha intensamente Nas ilustrações, ele sempre parece meio marrom.Cor xôxa.
Mas é lindo. Vibrante. Parecia que do ovo, a serpente logo logo ia  nascer... bem ali na minha frente. Esperei. Nada.
Fiz um comentário com o casal do lado: Tudo é tão lindo e  fresco, que parece que ela acabou de pintar ontem mesmo...
 E como não poderia deixar de ser, estavam lá todos os fantasmas.
Depois do que vi, decidi que vou fazer diário de viagem.
A lá Tarsila.
Pra que algum dia, alguém veja e fale: Uau, que legal, ela viveu né? cada momanto...vou fazer um também... 
E então a chuva caiu. e me sentei nas escadarias que dão pra Candelária.
Estava linda e iluminada. Os turistas a clicavam, e eu pensei: Nunca entrei ali. Passo há mais de trinta anos na porta dessa igreja, um marco na história dessa cidade, e nunca entrei.
Sempre fiquei só na porta.
Alheia.
Então, eu tirei meus sapatos de salto, e fiquei olhando um poeta vendendo sua obra pelo preço que as pessoas pudessem dar...
Ele me falou: a arte não tem preço.
E eu fiquei ali. parada. pensando: será que não tem mesmo?

é só saber esperar...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Tropeçando vou pelo caminho das palavras...
Me ensina de novo a ler?
Preciso voltar ao começo
quando o erro não era factível do acerto
quando  o mundo era então maniqueísta
Estou farta da desconfinnaça destes dias...
estou farta de tentar descobrir a todo instante o que  é real e o que é falso.
Meu mundo não resiste a marcar a vida com X.
Sento-me para descansar.
Bem lá na frente, tem um atalho.
Mas sabe o que mais? Também estou farta de atalhos.

quinta-feira, 15 de março de 2012


- Olhe só para  você... Olhe só ao que o mundo reduziu a pequena menina.
A menina com a boca igual  da Brigite Bardot.
Nada. Nada. Nada.
Não posso mais roer as unhas, sou mulher crescida e cheia de compromissos.
Não devo atacar os doces da geladeira.
Tenho pesadelos com manequins esqueléticos.
olhe só a que se reduziu minhas coxas grossas... 
E a esta altura do campeonato, já não tenho mais  tranquilidade para estar só.
Sei que...
Deveria.
Talvez?
Quem sabe?
Queria ser feroz, atacar com ferocidade aqueles que usurpam meus sentimentos, queria atacar, estremecer de fascinio ao ver os olhos das minha vítimas arrancados e o sangue esvaindo fluído.
Os olhos das bestas feras arrancados...
E a felicidade me corroendo por dentro, como um caminho dentro do formigueiro.
Apenas me chamem. Não me deixem aqui, com esse aperto no peito.
Vou levantar cedo para cumprir com os rituais.
Começar de novo.
Do principio.
Como se todas as coisas nunca tivessem acontecido, como se os anjos descessem pra  terra, nús e não vestidos com seus  castos e longos  camisolões  azuis.
Odeio azul.
Cor besta.

terça-feira, 13 de março de 2012



Um dia então meu irmão morreu.
Morreu de uma dor inesperada que lhe corroeu as entranhas e lhe levou para um mundo desconhecido onde anjos endiabrados corriam na frente das nuvens com uma maquina de realejo nas mãos.

Eu tinha sete anos e vi  no caixão uma criança vestida  com uma camisola de anjo, bordada  com pontos paris feitos por minha mãe, que teceu esta  mortalha sentada no jardim, em frente ao instituto medico legal, enquanto esperava a liberação do corpo da sua  pequena  cria.

Ela costurou cada ponto com uma lagrima e elas  estavam  todas lá, jorrando do caixão  entre as pequeninas  mãos  de unhas pintadas de  cor de rosa, que  eu  mesma havia pintado na véspera.

Éramos crianças sem brinquedos. E também  não  tinhamos sexo.

Pintar as unhas era um passatempo que inventávamos nas tardes  que não tínhamos nada para fazer com a única coisa que tínhamos para fazer.
 
Mas meu irmão  estava morto e fechado o caixão,  minha mãe partiu, enterrada viva, junto com ele.

Eu e minha irmã, ficamos órfãs de mãe para sempre.

Ela nunca mais sorriu daquela maneira doce, nunca mais pintou os olhos, nunca mais soltou os longos cabelos...
Ela  pranteou essa morte desde do momento que a previu.

Seus olhos mortiços de perda nos acusavam silenciosos  das nossas desgraçadas existências que  a acompanhariam durante toda a nossa vida. 

Ficávamos ali a espreita de sermos notadas.
Ficávamos ali, rejeitadas como cães de rua, desentendidas da morte, fugindo para  uma nova vida onde  as perdas seguiriam constantes.

E  nas noites que tínhamos medo da alma penada de meu irmãozinho, corríamos para a sua cama e ela nos expulsava aos gritos de desespero.

Aquele lugar tinha dono.
Aquele  lugar  teria dono para sempre.
Éramos intrusas num mundo forjado de muros e aços, onde a alma penada do meu irmãozinho habitava num limbo de amor e memória.

Dormíamos então, eu e minha irmã, enrodilhadas  num colcha maltrapilha no chão, até que o dia chegasse e parasse de nos assombrar.

Essa rejeição me custou caro.
Por conta disso aprendi a roer as unhas no sabugo até que elas não parassem de  sangrar..

Tornei-me gaga da noite para o dia, e as palavras nunca mais se consertaram dentro de mim.Se exilaram num mundo  de sombras e medos aflitivos que me enganavam e custavam a vir à tona.

A única coisa que me sobrava era correr  contra o vento abrindo e fechando a boca sem parar, provocando a libertação das palavras  que só vieram o anos mais tarde, quando desamparada da vida e sufocada da morte, encontrei  a poesia.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Os sintomas da velha depressão, hoje se abatem sobre mim...
Estou tão frágil como porcelana...
Estou sem forças para fugir correndo.
Acho que vou ficar aqui parada.
Pra ver se passa.
O pior é essa vontade imensa de ficar aqui.
Parada.
Olhando o nada, percebendo o nada, como esse instante.
Não me permitirei...
Não me permitirei...
Mas o que faço com essa vontade danada de chorar?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012



Eu canto em mi.
Descobrir isso mudou o  tom desavesso  da minha longa  perspectiva de nunca chegar a lugar nenhum, De nunca saber para onde vou, ou o que quero realmente da vida.
Poderia cantar em lá ou dó maior.
Mas canto emMi.
Isso é definitivo.
Não é escolha, é fato.
E isso me torna eu mais um pouco. Me deixo  tomar por essa idéia de completude.
Unicamente eu canto em mi. E isso me torna forte.Não preciso escolher.
Assim, sou um pouco mais eu, sem precisar mergulhar no labirinto das escolhas.
Canto em mi, e isso me basta. 


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Somente aqui posso me reencontrar: dentro de mim mesma.
Se não há saída, há o atalho.
Mas...Pra onde ir quando o atalho parece uma estrada longa demais a seguir?