Total de visualizações de página

terça-feira, 31 de março de 2009

Leite Derramado

Acabei de ler a crítica do novo livro do Chico Buarque.
3 folhas inteirinhas do Prosa e Verso.
Proclamado como o mais importante romance brasileiro do século XXI, tendo sua escrita fina e irônica comparada a Machado de Assis.
Achei um pouco demais.

Não que o Chico não mereça.
A comparação é uma declaração exacerbada, quase fanática de reconhecimento de seu talento.

Ninguém espera menos de Chico.

E ele merece.

Mas uma coisa ,é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

São ambos homens cariocas, afinados com seu tempo. Mas Chico não tem as referências ideológicas, políticas e filosóficas de Machado.

A fina ironia Machadiana é incomparável, é isso que faz o Machado ser quem ele é na literatura nacional.Além do mais, o contexto do seu vivido, está posto.

Ponto final.

Mas vamos ao Chico.
Eu sou fá de carteirinha.

Amor de menina, para sempre. Adoro tudo que se refere a ele. Já fiz inclusive aqui no blog, vários posts rasgados de eterna admiração.

Gosto do seu jeito calmo, de seus olhos de matizes misteriosas, gosto do seu talento, de sua alma poética, gosto da Marieta, das meninas, e dos seus netos.
Menos do Carlinhos Brown.
Genro não é parente.

Prometo para mim mesma comprar o livro nesse final de semana juntamente com o livro da Lívia Garcia Roza um infantil intitulado Era Outra Vez e o da Aleida March, sobre sua vida intima com Che Guevara. Outra fixação da minha mente dormente.

Enquanto lia as três páginas da crítica, ia pensando a maravilha que é para o Chico poder se dar ao luxo de lançar um livro e não precisar ser entrevistado.

E pensando minha mente vai aquietando meus planos infalíveis.

Todo lançamento de romance, me odeio.

Escrevo há 11 anos, a porra de um romance que não me deixa dormir.A protagonista me persegue, me acorda para narrar fielmente seus acontecimentos diários, que eu já sei.

Mas ela apenas acha que sei. Ela não quer isso. Quer aquilo.
Vai me ditando pelos seus próprios caminhos, e eu me perco entre seus labirintos. Ela é e tão confusa e complicada quanto eu, mas ao mesmo tempo tão simples e diferente.

Diferentemente de mim, ela sabe tomar decisões. Eu não.

Finalmente descubro o que me incomoda no meu romance: Preciso mudar o tipo de narrativa, e o final.Preciso ser menos sentimental e fazer valer as regra de Quintana:Retirar sem dó nem piedade o que está sobrando.
Limar. Eliminar. Aniquilar.

Escrever é um martírio.
E quanto mais leio criticas,mas me distancio desse mundo perverso das palavras, que acolhem e dão vida, e ao mesmo tempo, causam um transtorno irrecuperável, se não ditas.
Tenho medo do que escrevo, e mais ainda do que não escrevo.
Tenho medo das coisas que guardo em mim,das ondas que vão se acumulando, me dando uma angústia, uma febre , ansiando por um grito de libertação

Vou ler o livro do Chico.

Minha mente funcionando, e construindo um mundo á parte, pensando muito mais no que o autor pretende no que o personagem quer dizer. Nada está pronto.Nada é.

Tudo é sistema aberto, e eu estou afim de ver qual é.

E assim, vou passando meus dias. Abstinência da palavra escrita, vorazmente me alimentando de palavras alheias. Buscando respostas,fuçando aqui e ali. Não estou pronta para tomar decisões.

Me alimento de Clarice no momento. Podia ser qualquer um.

Não adianta chorar sobre o leite derramado mesmo.