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quarta-feira, 20 de junho de 2007

Memórias...

Hoje vou falar um pouco dessa coisa fantástica que é a memória da gente.

Estou fazendo um curso de Contação de História na Casa de Cultura de Nova Iguaçu, com um pessoal muito massa, organizado e cheio de idéias criativas que é a professora Jussara, a Sonia Lima e Jeane.
A Jussara fez uma dinâmica onde cada participante levava um objeto que fizesse lembrar algo importante da sua vida.
Tanta coisa rolou naquele teatro! Eu chorei tanto! de chorar e de rir. Principalmente da Jeane que por ser atriz deu show ao contar as peripécias do dia de seu casamento.
Motivada por esta atividade, tenho me lembrado de várias coisas do meu passado, da minha vida.
Lembrar é confortar a alma.
E tenho dado conforto à minha, principalmente quando as lembranças não são um mar de rosas.

Como já tive a oportunidade de contar, fui criada parcialmente pelas minhas tias, e hoje uma delas me veio à memória.

Minha tia se chamava Ecy Emilia Reis Cony, casada com meu tio Ze Carlos, irmão do Carlos Heitor Cony, ou simplesmente Heitor, como todos o chamavam em casa.

Minha tia era Contadora de profissão, e meu tio, Professor.Ela Muito inteligente, bonita e cheirosa, ele era bem humorado, paciente, inteligente.
Eles levavam uma vida conturbada, eu saberia depois, mas quando eu os visitava em seu apartamento em Botafogo,tudo me parecia um paraíso perfeito.

Uma das coisas que eu mais gostava nessas visitas era o quarto da minha tia. Ela era super vaidosa.

Tinha várias perucas de todos os tipos e cores, perfumes franceses, roupas de grife, e eu ficava boba olhando aquele mundo de coisas guardadas num guarda roupa enorme, inacessível para um sonho de menina pobre que via tudo aquilo pela primeira vez.

Minha familia era muito humilde, não tínhamos muita coisa na vida a não ser a esperança dos meus pais. Coisas materiais lá em casa, era esperar o natal chegar para ganhar as roupas usadas que vinham das minhas primas.

Então imaginem como eu ficava enlouquecida com tanta coisa bonita ao meu redor.A maquiagem, os colares, os anéis e as pulseiras multicoloridas. Adorava ficar olhando minha tia se arrumar. Agora vejo que aquilo para mim, era uma coisa meio surreal, teatral. Mas eu adorava.

Em meados de 1970, meu tio pediu o divórcio. Foi um escândalo na família! O assunto era tratado a sete chaves, numa época em que criança não ficava na sala ouvindo conversa de adulto. Eu descobri tudo porque me escondi embaixo da mesa.
Queria saber o que minha tia e minha mãe conversavam e que eu não podia saber.


Foi aí que ouvi pela primeira vez a incompreensível palavra Divórcio.

Minha tia nunca aceitou a separação. Nunca.

Mesmo assim, meu tio saiu de casa. Mas demorou longos anos até que a separação fosse legitimada.

Por uma encruzilhada do destino, eles nunca tiveram filhos, pois minha tia era estéril, mas nos anos oitenta, ele topou adotar junto com ela uma menininha linda que fora abandonada pela mãe.
Por amor, ou amizade como queiram, ele aceitou realizar o maior sonho da vida dela.
E assim, Tati passou a fazer parte da nossa familia.

Depois da adoção, eles se divorciaram formalmente.

Tio Zé carlos se estabeleceu com outra família, teve uma filha e minha querida tia adquiriu um câncer de mama, que acabou matando-a.

Lembro-me dela com um carinho que não é possível. Guardo com amor seu diário, datado de 1945, onde ela escreveu poesias e outros pensamentos. Minha tia era tão bonita que fez ponta no cinema, naquela época, coisa rara numa familia de não artistas.

Lembrei-me hoje do tempo, que eu era a filha que ela nunca teve. E quando ela fora um pouco minha mãe. Fui tratada com muito carinho.

No dia em que ela morreu, eu estava no hospital, de sua acompanhante.

Era uma bela tarde de verão. Eu esperava alguém para render-me.

Meu tio chegou na hora da visita e eu vi a troca de seus olhares tristonhos e acho que um pouco apavorados.
Mas havia laçõs. De carinho. De saudade. De amizade, e porque não? De amor.
Ela já não falava mais havia alguns dias.


Resolvi deixá-los sozinhos.

Sabia que era a despedida dos dois.

Dei uma volta, e quando voltei ao quarto, encontrei meu tio chorando no corredor. Chorei junto. O fim estava próximo.

Resolvemos ficar com ela mais um pouco até que outra pessoa viesse nos render.

Quando fomos embora, estávamos muito tristes.Ele me deixou no centro da cidade e foi embora para o Méier.

Naquela mesma noite minha tia morreu, e eu fui me dar conta, que aquele dia também havia sido a última vez em que eu vi meu tio com vida.

Isso me veio na memória hoje. Não sei porque. Talvez porque a mídia esteja anunciando aos quatro ventos o final do relacionamento de dois famosos emergentes, querendo nos fazer acreditar o quão descartável é o amor.

Mas diante de tudo que foi posto, me recuso a acreditar.