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terça-feira, 22 de setembro de 2009

dor de plástico

(Equestrienne, 1931, Chagall)

Ainda não está na hora de dormir e lá fora cai um temporal.

Na televisão passa um filme infantil, na mesa, meus escritos à mão, uma xicara de chá vazia, uma cartela de comprimidos para dor e dois potes de danone comidos pela metade.

A cabeça variando entre os afazeres que precisam serem feitos antes que as crianças gritem de fome.
E uma incerteza corroendo as entranhas, feitas de certezas tão voluveis como eu mesma fui um dia.Não tem jeito eu não posso continuar me engananado.Não sou mesmo de construir um poema. Não adianta.Eu vivo da inspiração,do momento fulgaz entre o pensamento ulterior e a palavra escrita.

Sou a menina-moça-musa-deusa que acredita, que acredita com força e coragem que poesia, ou qualquer outras escrita que o valha, se faz com inspiração...
No outro dia conserto tudo e vejo se está bom.

Ainda não está na hora de dormir, mas gostaria de me recolher em meu quarto e começar a ler meu livro do Kierkgaard sem ser interrompida por ninguém, principalmente pelas lembranças.

Gostaria de ter gravado a nossa última conversa, para cada vez que desejasse falar com você, eu pudesse recorrer e sob pseudônimo oculto reviver a amargura que tu me deste.
Abraao sacrificou Issac.
Eu tenho que sacrificar você

A porta de saída sempre esteve aberta me esperando, mas sou teimosa das insistências e riscos.
Isso me entristece e cansa ao mesmo tempo.

Invento desenhos no canto da página e nomeio flores de planetas inexistentes.

Minha cabeça deu para doer todos os dias, pensando coisas que não deveriam ser pensadas porque fazem parte do que não são e nunca serão.

Mas a dor está ali, permanece tum, tum, tum, como uma mão batendo na porta do porão.
Essa saudade que vai me intoxicando devagar, o medo de falar e não ser ouvida, a angustia de não ser importante pra ninguém.
É uma dor real. Não uma dor de plástico.
Quem me dera ser tudo que você queria que eu fosse.
Mas sou apenas eu com meus defeitos e ciume dramático.
Sou apenas eu com meus cabelos pintados e uma vontade de fumar às escondidas.
Sou apenas eu, de corpo inteiro, pronta pra te abraçar e pra comer os restos das comidas das crianças.
Nada de especial.
Esse desespero pelo teu abraço. Pelo teus olhos.É pesadelo de todo instante.
O barulho da chuva me enerva.
Meu corpo é todo saudade,
Meus pés tem frio.