Total de visualizações de página

sexta-feira, 18 de julho de 2008

contemplação



Naquela manhã ela acordou e não resistiu.Correu pra se olhar no espelho.

Correu pra dar conta dos seus penduricalhos internos que chacoalhavam-na à exaustão.

Ela correu para dar de cara com suas dores. Tão profundas, tão maduras,tão resistentes como os bicudos no algodoeiro.

Logo se arrependeu da sua inspenção.

Se dar conta pra que?

Porque querer saber de coisas que não mais lhe interessam?

A antiga euforia de se pertencer acabara quando descobriu que as dores da infância não terminavam quando se crescia.

Elas ainda permaneciam lá. Quietas, à espreita,com os dentes arreganhados.

Cresceram com os anos, e assombravam com mais força, e o pior foi descobrir que não tinha mais pra onde correr.

Não tinha mais o aconchego da cama de pai e mãe.

O caminho estava livre.

Sim, estava ali exposta.Vulnerável.

E ainda que tentasse se esconder em seus subterrâneos mais profundos, algo sempre ficava á mostra.

E pode ver sua cama recoberta de ossos de antigas relações.

Precisava ir ao supermercado. Com urgência.

Tinha que guardar esses esqueletos dentro de uma caixa de papelão e seguir adiante.

Mas não hoje.

Não hoje quando sua cabeça pesava. Tantas quinquilharias.

E seu corpo? Arriscado de se enferrujar tamanho era o peso da armadura.

Olhou-se novamente.Não havia saídas.

Pelo menos, por enquanto.

Em frangalhos, foi tomar seu café da manhã.