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quarta-feira, 23 de julho de 2008

lucidez



Depois de muito pensar ela decidiu não sabotar mais sua vida.

Iria jogar pro alto aquele homem maravilhoso que conhecera, com os olhos mais lindos que vira no último mês, mas que sua intuição lhe dizia desde o primeiro dia que ele era encrenca, e das grandes.

Decidiu que não daria mais pra ele, por mais que cada vez que abrisse as pernas, o gozo já saisse jorrando de suas entranhas quentes.

Era um pesar. Mas ela era muito mais que isso.

E, pela primeira vez na vida, não sabia o que queria.

Não sabia se queria aceitar o que ele estivesse disposto a lhe oferecer.

Mesmo que fosse pouco. Mesmo que fosse tudo.

Ele, filho de Quíron, inconstante, infiel, sedutor até a última gota de sangue,lhe dizia sua intuição, podia lhe fazer mal, muito mal.

E por mais que gostasse de correr perigos, investisse nos desafios, por mais que lhe fosse difíicil resistir ao cafajestismo, a pedaços de céu de boca, a mãos fortes, a pernas peludas, ela se sentia-se suficientemente madura para dizer não.

Estava a disposta a virar a mesa da própria vida.

Iria fazer as pazes consigo mesma num nível mais profundo.

Se perdoaria pelas suas imperfeições, pelos seus amores desastrosos, pelos seus erros seguidos, pela impaciência descarada, pela preguiça que a impedia de lutar pela sua própria vida.

Se perdoaria e começaria de novo.

Seria indecente consigo mesma.

Se daria prazer.

Se olharia no espelho não para buscar a última estria que saiu no peito ou mais um furinho das malditas celulites.

Não buscaria as olheiras que nem aquele creme caríssimo dava jeito.

Buscaria sua perfeição perdida.

Se olharia por fora, resgatando a beleza de dentro, a pureza do ínfimo, a doçura interior.

O encanto infantil do seu sorriso, sempre tão elogiado, a brejeirice sensual de seu olhar de Capitu, a indiscreta saliência entre suas coxas roliças.

Sim, faria as pazes consigo mesma com disposição de jogadora.

De mente aberta pro que der e vier, dona do jogo e da bola.

Lúcida, para captar a luz vertiginosa que entra pelas janelas e portas abertas de seu coração, e pronta para jogar no baú tudo aquilo que está sobrando, que é corrente, que pesa e interfere na sua caminhada.

Faria as pazes consigo mesma e desperta, estaria pronta para começar no mundo.