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domingo, 13 de abril de 2008

Hoje é domingo, pé de cachimbo....

(mariis)

Resolvi postar um conto que fiz tem um tempinho, mas que achei que tava na hora de botar pra quebrar... Quem quiser mandar um conto, pode mandar também....

É isso aí, espero que gostem.


Procura-se

Estou quase na menopausa.

Depois de pensar muito no assunto, não sei se isso é bom ou ruim.
Não sei se é uma benção ou uma fatalidade.

Roberto me ligou esta manhã. Quer que meu livro fique pronto antes do tempo. É preciso fazer reuniões e mais reuniões antes de tudo fique do jeito que ele quer. E eu que pensei que dessa vez ia ser diferente. Ganhei um prêmio importante, internacional e achei que finalmente poderia opinar sobre minha obra.

Mas fiz um bom trabalho. Acho que com isso irei calar a boca daqueles indesejáveis críticos de plantão que vivem me insultando, só porque declarei publicamente que já havia lido Paulo Coelho.

Roberto me deixa nervosa, já me ligou uma cinco vezes só essa manhã.

Preciso escolher duas capas para o livro. Eu quando fico nervosa, começo a fazer listas.

Centenas de vezes, centenas de listas. E as farei até que meus cabelos fiquem brancos ou que eu possa pagar minhas promessas em Santiago do Chile ou seria de Compostela?

O que sei é que Roberto é uma quizila na minha vida.

De novo o telefone?

Mário não me ligou. Mas um na minha coleção dos ficantes não ligantes.

Nessas horas de angústia e solidão, penso: Porque que não agüentei o Arnaldo?
Eu podia ter empurrado com a barriga aquele casamento. Mas como? Ele nunca sequer leu o que eu escrevi. E como eu poderia amar um homem que não lê o que escrevo?

Mas tudo degringolou de vez no dia, ou melhor, na noite, que Arnaldo me acusou de sensível. Falou isso como se eu carregasse a marca da besta nas costas.

Meu alento é que ainda me sinto no direito de improvisar uma poesia

“Se eu pudesse entrar em seu pensamento”.
O que eu leria?
O que eu teria?
Diz pra mim quantas lágrimas eu choraria?
Diz pra mim, quantas mentiras você me diria?
Um futuro sombrio
Meu coração no escuro
A lua murchando no céu
É preciso estar atento
Para socorrer
O mundo...

Ai meu Deus! Futuro sombrio?

1-Deixar de fumar..
2-Não comer gordura
3-Parar de roer unha
4-Ir ao cinema uma vez por semana
5- Comer legumes cozidos no vapor
6-Deixar de ler bobagens e comprar todo livro de filosofia que eu ver pela frente
E finalmente,

Parar de procurar olhos.

Ai! De novo as listas, que terrível! Estou ficando sem controle. As listas estão invadindo até meu ato poético.

Mas, afinal, para que servem olhos, senão para olhar?

E o que eu quero não são simplesmente olhos que a gente doe para transplante.
Quero olhar.

Mas ultimamente os olhares que recebo tão são predadores, tão animais, que prefiro olhar para o chão a continuar esta insana procura por um amor.

Ando frágil, mesmo depois dos quarenta anos;

Frágil e fogosa. Indecente e carente. Não encontro homem a altura da minha seleção.

Procura-se homem de bem com a vida, que dê atenção a pores de sol, que na hora do jogo do seu time me tranque no quarto e me rasgue a roupa, que acorde de madrugada para ouvir o poema que acabei de compor.

Acho que estou pedindo demais.

Mas não posso deixar de me sentir igualzinho quando fiquei mocinha pela primeira vez, e os hormônios me molhavam a calcinha.

Dulce minha amiga é que me salva nestas horas insanas quando tudo parece perdido.

Pensamos viagens.
Fazemos planos, passamos semanas e semanas visitando agências de turismo, estudando roteiros, imaginando romances, iguais adolescentes.

Que coisa horrível ir envelhecendo desta maneira. Só.
A mente não acompanhando o corpo.

Sinto-me jovem ainda, bem jovem e tenho um espelho que me ajuda.

Ai que dor nas costas! Meu Deus, nem tudo é perfeito!

Obviamente quando eu e Dulce caímos na real e vimos que não temos um tostão para realizar nossos sonhos, descambamos para os livros.

E nossa busca recomeça nas livrarias e nos sebos de livros raros, serve qualquer coisa de Jean Genet, uma biografia não autorizada, passando por Augusto dos Anjos ou a história do mundo em quadrinhos.

O que na verdade fazemos é procurar um olhar.

Um olhar.

Apenas um olhar, que pode se tornar um amor.

Um olhar que me tire dessa solidão de edifício em que vivo.

Um amor que cause um impacto e que faça diferença dentro dessa normalidade caótica.