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sábado, 15 de março de 2008

Cotidiano


O gato bebia seu leite ao lado da pia.

A Avó acordou mais cedo, coou o café e requentou o pão de ontem na frigideira.

Dali a pouco casa acordava e ela precisava pensar em alguma coisa pro almoço. Um omelete quem sabe?

Deu comida aos cachorros. Varreu o quintal, observando as orquídeas que explodiam em
flores.

O neto mais velho saiu e deixou uns trocados em cima da geladeira. Não se despediu.

O filho acordou mais tarde. Colocou a capanga e o classificados de ontem embaixo do braço.Passou um pente no cabelo ralo enquanto tomava um copo de café.

Não se despediu.

Ela o acompanhou com olhos embaçados e tristes.

O filho aos invés de descer a ladeira para o ponto de ônibus, subiu e virou à esquerda.

O bar do Seu Francisco.

Que ele apodrecesse na cachaça.A alma revoltou-se.

Com calma, retempera o feijão de ontem. Espera o arroz cozinhar e faz um chuchu refogadinho.

Cobre tudo com um pano de prato. Faz uma marmita pra depois.

Agora não tem fome.Engole mais um golinho de café.

Acorda o neto caçula. Dá o café e avisa: Se a professora faltar,espera e almoça na
escola.

Com a benção,ele sai sem escovar os dentes.

Ela calça o tênis surrado. Coloca o boné e pega a bolsa pendurada atrás da porta.

Caminha lentamente. As pernas cheias de varizes doem à exaustão.

Chega onde queria. Abre a bolsa. Saca os adesivos coloridos. Esconde por mais um dia a vergonha no fundo dos olhos.

Não queria que seus pais,estivessem onde estivessem, a vissem assim.

Se deus fosse mesmo misercordioso, eles não a veriam.

- Adesivo! um real! Adesivo apenas um real!