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sexta-feira, 7 de março de 2008

2ª via da Identidade


Minha carteira de identidade estava um caco.

Fazia vinte e dois anos que a coitadinha me acompanhava em todos os momentos da minha vida: cineminhas, teatro, Rock in Rio I, médicos, lojas, bancos, maternidade,show do Roger Waters, inscrição de concursos, viagens, empréstimos, crediários...

Um belo dia, foi parar na maquina de lavar e ficou moída.

Triste fim, para um documento que praticamente me acompanhou em toda minha vida adulta. Minha foto em preto branco mostrava minha carinha com 18 anos e a assinatura tinha um quê de infantil.

Eu precisava providenciar outra imediatamente.

Parece incrível mas você não faz nada sem a bendita da identidade.

Ele é realmente importante? Será?Provei que nem tanto.

Bem, me encaminhei para o DETRAN de Nova Iguaçu para fazer a 2ª via da carteira de identidade.

Duda. Fila no Itaú. Fila no Detran. Calor insuportável. Fotos recusadas. Fotos aceitas.

Um mês de ansiosa espera, e ainda na fila da entrega detecto um erro:
O dígito estava errado!

Ao invés de 8 estava o número 6.

Na mesma hora notifiquei para o funcionário que me atendia o erro detectado, e ele me respondeu o mais burocrático possível:

-A senhora tem um mês para ver se o documento contém erros e voltar aqui para dar entrada e refazer.

-Peraí, detectei o erro agora! O meu digito é 8 e não 6. Não dá pra cê dá uma anotadinha aí em algum lugar e, ao invés de eu voltar aqui outro dia, a gente já faz isso hoje mesmo.

Resposta :

- A senhora tem um mês para detectar os erros e voltar aquisenhora.

- Poxa, eu sou professora, quebra o galho, não posso perder meu tempo....

- O próximo!

Saí resmungando. Senhora é a pqtp...

Ainda revoltada volto uma semana depois para tirar a carteira de identidade de meu filho mais velho.

Com aquela resposta engasgada na garganta, aproveito para esclarecer umas coisitas.

E não é que o mesmo fulano me atendeu?Explico o caso.

Ele me dá uma olhada desconfiada sob os óculos.

_ Como assim errado?

Eu já estava contrariada. Caramba! Explico de novo.

Ele sem paciência manda eu esclarecer minhas dúvidas com a menina de coque.

Lá fui eu.

E então ela me diz o indizível:

-O seu dígito sempre foi 6 e não 8 conforme a senhora pensava.

- Como assim pensava? Estava escrito lá na outra identidade.

- A senhora tem como provar?

_ Não ela está toda esmigalhada...

- Então....

Então quer dizer que desde 1985 que eu ando por aí dando meu dígito errado e ninguém nunca reclamou que estava errado? Eu faço imposto de renda moça, tenho cartões de credito, talão de cheque...sou funcionária pública,como pode isso?

Para confirmar sua teoria ela digitou o número do RG com digito 8 na minha frente e deu Número de RG não encontrado.

Todo esse tempo, e ninguém nunca descobriu que eu não existo?

_ Nao senhora. Eles não verificam.- A menina do coque me respondeu.

E ainda completou:

- Note bem que quando eu digito seu nome todo, os regitros do IFP dão o seu número com dígito 6, então seu digito é 6.

_ Deuses do Absurdo! Me descabelei.

Eu e todos os que assistiam a cena, horrorizados.

Não me conformo com isso até hoje.

No começo ainda tentava explicar nas lojas e etc. Depois desisti. Era muito complicado para mim e para as pessoas.

O sistema está errado? Ou eu?

Mesmo assim, levei uma vida normal esse tempo todo, sem sobresaltos.
Mas isso quer dizer pratiquei o estelionatário, 22 anos sem saber. E eu sou uma "senhora" de familia que paga seus impostos em dia. Imagina se não fosse?

Como dizia o Shakespeare: Existem mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha a nossa vã filosofia.